segunda-feira, abril 04, 2005

O papa e o poder da mídia

OK, eu sei que eu sempre uso esse espaço pra fazer piada mas como ele é meu e eu faço o que e quiser com ele agora eu vou falar sério.
Antes de começar, porém, tem um fato que eu gostaria de chamar a atenção. ABRE PARÊNTESE. Ninguém, provavelmente com exceção alguns poucos cardeais, sabe se as atitudes do papa refletiam realmente a sua vontade ou se ele era apenas um "pau mandado" da alta cúpula do Vaticano, uma mão para assinar os documentos que legitimariam a vontade alheia. E provavelmente tb ninguém vai saber. FECHA PARÊNTESE.

É interessante o poder que a mídia tem de influenciar as pessoas. Vamos deixar as coisas bem claras: o sr. Wojtyla não era, NEM DE LONGE, um ser humano do mesmo "calibre" de um Jesus, um Sidarta ou um Gandhi. E que não pensem que isso é implicância minha; estou apenas me atendo aos fatos. Todo mundo sabe ou tem uma idéia do que Jesus e outros fizeram. Suas obras falam por si. O que eu me questiono é exatamente isso: o q o Papa tem (ou melhor, tinha) a seu favor? O que ele tem no "currículo" pra justificar essa comoção toda?

Vamos aos fatos em si: a mídia gosta de propagar a importância que teve o papa na queda do comunismo e no fim da Guerra Fria. Isso aí realmente é inegável. Agora, responde pra mim, não sem refletir um pouco antes: foi bom mesmo ter acabado a Guerra Fria? Antes, nós vivíamos num mundo dividido em dois blocos, e o próprio medo mútuo, se por um lado estava longe de ser uma situação ideal, servia para impor limites na atuação global de cada bloco. Era uma espécie de paz "panela-de-pressão", como dizia o meu xará, o Caô. Mas era pior do que agora? Tenho minhas dúvidas.

Parece que pouca gente reparou que o fim do comunismo resultou na supremacia total e absoluta dos EUA. Hoje, ironicamente, o sr. Baby Bush tem quase o mesmo poder que a Igreja tinha na Idade Média. E quem estava lá de mãozinhas dadas com o Reagan? Ele mesmo, o sr. Wojtyla. Teve o seu lado positivo? Claro que sim. O caso da Polônia mesmo é um exemplo clássico. O papa acreditava que o comunismo era ruim por ser totalitarista. Mas como pra isso tinha que ser aliado dos EUA (e por aliado leia-se inclusive ajuda mútua entre agências de inteligência e espionagem), fazia vista grossa para as ditaduras brutais e sangrentas na América Latina. Contraditório? É, é mais ou menos por aí.

Ah, e alguém por acaso esqueceu que ele era o líder da Igreja? Que todas as coisas absurdas que a Igreja prega, como por exemplo o celibato dos padres, poderiam deixar de existir com uma simples canetada do sr. Wojtyla? (Baideuêi, cês sabem que historicamente esse celibato tinha o objetivo de deixar o padre sem herdeiros de modo a deixar tudo pra Igreja, não sabem? Será que não existe tb um "pontinho" de responsabilidade da Igreja em todas essa estórias de padres pedófilos, uma vez que ela reprime sua natureza sexual?). Outra: sacam a teologia da libertação, aquele segmento que pregava um "retorno às origens" do cristianismo? Ai de quem falasse alguma coisa, era "RUA" na hora. (Foi inclusive o que aconteceu com o frei brasileiro Leonardo Boff). Vcs sabem q Igreja é contra o uso de preservativos e anticoncepcionais, não sabem? Vcs conseguem se imaginar com 8 ou 9 filhos, como era comum antes da descoberta da pílula? E o que dizer de uma Igreja que tanto adora a figura feminina de Maria e discrimina a mulher na maior cara-de-pau, uma vez que "ordenação de mulheres" é "assunto proibido" no Vaticano? Contraditório de novo? Pois é...

Muito bem, ainda que eu quisesse passar por cima disso tudo: qual é o currículo do papa? O que ele fez de tão bom? Ah, ele pregou no mundo todo. Mas será que isso é tanta coisa assim? Na boa, se alguém resolvesse custear TODAS AS MINHAS DESPESAS e "em troca" eu só tivesse que viajar o mundo todo (que chato, hein?), beijar o chão e fazer um discurso bonitinho, cês acham que eu não ia? Qualquer um ia.

Não é que eu esteja dizendo que não era sincero, de repente até era mesmo de coração, isso nós nunca vamos saber. O que eu tô te dizendo é que ainda assim, milhares de pessoas no mundo todo seriam capazes de fazer o mesmo. Se fosse eu a fazer os discursos, tb seria de coração. Isso me tornaria melhor do que alguém? Claro que não. E é exatamente esse o ponto em que eu queria chegar: o papa podia até ser gente boa, mas NÃO ERA MELHOR DO QUE NINGUÉM. É muito fácil falar isso tudo quando a sua casa é toda de ouro. Eu quero ver é ser iluminado pegando o Japeri-Central todo dia às 5 da manhã. Só pra ficar nos que eu citei, olhem para Jesus, Sidarta ou Gandhi: eles foram REALMENTE "grandes almas" no meio da pobreza. Sua vida inteira foi um exemplo. Por mais que se goste do papa, não dá pra botar no mesmo nível.

É claro que ninguém deve se sentir idiota por ter se emocionado com a morte do papa, afinal nós somos humanos. O que eu fico puto é com essa bajulação da mídia. Chega a tal ponto que o troço penetra o seu subconsciente: cês já se pegaram escrevendo a palavra "papa" com inicial maiúscula, do mesmo modo que "Deus"? Eu já me peguei, aqui mesmo no blog.

Pra concluir: sinceramente, o sr. Wojtyla pode até ter tido seus momentos, mas um cara como Mandela, por exemplo, vai fazer muito mais falta. Se bem que foi legal por parte do sr. Wojtyla antes de ir pro céu ter dado uma passadinha no Maraca pra dar uma forcinha pro tricolor, rsrsrs...